Desvenda o Crime

Ingredientes que bastam

ACTO 1

Moro com Ada e Bia num pequeno apartamento. Andei com Ada no Secundário e através dela conheci Bia, pois sendo de Filosofia e elas de Psicologia foi fácil o encontro. A cidade tem interesse pelos monumentos e seu recheio, mas à noite não há muito onde ir e, como temos sempre que estudar, pouco saímos.

Na 5ª feira, 24 de Março, combinámos ir à noite à discoteca festejar os anos de Ivo, namorado da Bia depois desta deixar o Zoé, que é o mais velho de nós e mora com o Oto no apartamento ao lado do nosso. Eles são de Arquitectura e conhecemo-nos no CORUÉ.

Saímos de casa por volta das 23h, fomos ter com Oto e Zoé e descemos os cinco ao apartamento do Ivo.

Ivo vive com o irmão - Leo, e são tão parecidos que até faz confusão. Têm o rosto um pouco feminil e se Leo não tivesse bigode, bem negro por sinal, tanto que nem a água oxigenada a 30 volumes o aloirou, seria quase impossível distinguir um do outro. De Leo sabemos muito pouco. Veio de Alcobaça, onde trabalhava numa fábrica de espuma de poliuretano, para o curso pós-laboral de Ciências Exactas e Naturais, neste 2010/2011, por ter chumbado em anos anteriores. Do que ele gostava era de entrar em Química, mas infelizmente acabaram com o curso. Já o irmão prefere as Ciências da Vida e teve sorte, pois ingressou em Bioquímica há dois anos e tem sido um excelente aluno. Leo encontrou trabalho num supermercado da cidade, mas é tão intrometido e rancoroso que só muito dificilmente aqui fará amigos.

Como Leo não estava em casa, esperámos para vermos se aparecia. Entretanto, conversámos e tomámos um sumo que Ivo nos preparou. Após meia hora, decidimos ir para a discoteca, pois o mais provável seria Leo não aparecer.

Mal acabámos de chegar, Bia começou com modos estranhos, o que levou Ada a comentar: "Ó Ema, nunca vi Bia tão eufórica, desinibida e espalhafatosa, ela que, de nós é a que mais aguenta o álcool e até ao momento ainda nem sequer o cheirou". Chamámo-la e dissemos-lhe: "Ó Bia, o que foi que te deu? Vê se tens maneiras! Com tanta gente aqui, se continuas assim, amanhã vens na primeira página do jornal".

Ivo, que parecia estar a divertir-se com a situação, mostrou-se muito irritado e zangou-se seriamente com Bia, quando percebeu que ela tinha tomado um becherovka connosco, o que levou Oto a dizer-lhe: "Ó meu, então queres que as miúdas venham à discoteca beber chá de tília?".

Duas danças depois, Bia estava visivelmente cansada, ensonada e deprimida, a um canto apoiada numa cadeira. De súbito, pulou para a pista, abraçou-se ao pescoço do Oto e beijou-o sofregamente, pedindo alto e bom som o que não se pode aqui escrever. Então, Zoé e Ivo não se contiveram, puxaram-na por um braço, e Ivo gritou-lhe que era uma escandaleira o que estava a fazer, ademais na sua festa de anos.

Bia balbuciou umas palavras incompreensíveis, agitou os braços no ar, como se dançasse, os seus olhos movimentavam-se de maneira descontrolada e debateu-se desesperadamente para conseguir respirar. Ivo procurou acalmá-la e saíram para tomar ar, logo seguidos por Zoé. Cenas destas não são novidade, mas com Bia nunca tal tinha acontecido e, como Ivo era um rapaz certinho, voltámos para a pista de dança com Oto.

ACTO II

Zoé regressou uma hora depois. Ao ver-nos, acercou-se e perguntou-nos por Ivo e Bia, ficando tão surpreendido como nós quando percebeu que ainda não tinham voltado.

A noite estava a correr mal e decidimos acabá-la de vez. Deixámos a discoteca e voltámos a casa, na esperança de lá encontrarmos Ivo e Bia e de esta se sentir melhor. A porta, que tínhamos fechado, estava apenas encostada. Abrimo-la. Estava tudo num profundo silêncio. Entrámos e fomos, pé ante pé, até ao quarto de Bia. Encontrámo-la deitada, com as roupas da cama em desalinho. O seu corpo estava despido e frio, com sinais de ter vomitado e sem qualquer ruído respiratório. Ficámos paralisadas. Foi Oto quem telefonou para o 112. Infelizmente, todos chegámos tarde. Eram duas da manhã, Bia tinha falecido e de Ivo nem sinais.

Depois de removido o corpo, a Polícia revistou o apartamento e recolheu do chão o cinto e os sapatos de Bia para análise. Para grande estupefacção e embaraço nossos, do frigorífico, levou uma embalagem com um líquido incolor e viscoso, cuja origem não fomos capazes de explicar. Fora isso, tudo pareceu estar nos seus lugares.

Depois de Ema e Ada terem contado à Polícia aquilo que testemunharam, esta decidiu examinar os apartamentos dos restantes elementos do grupo. No quarto de Zoé, foi encontrada uma navalha de ponta e mola e uma pistola com munições, que ele afirmou ter-lhe o pai pedido para a pôr a reparar. No quarto de Oto, chamou a atenção uma caixa de rapé antiga, dada pelo avô no ano passado, onde guardava as ampolas de fenobarbital que tomava em momentos de crise.

A Polícia não recolheu quaisquer amostras nos quartos de Leo e Ivo, mas levou uma embalagem contendo restos de um líquido roxo aquoso e 4 copos com resíduos, aparentemente de sumo, e 2 já enxaguados. Entretanto, Leo adiantou que as 4 embalagens de quinhentos gramas de bicarbonato de sódio, no armário da cozinha, e a garrafa de acetona, tinha ele trazido do supermercado por encomenda, mas ainda não as tinham vindo buscar.

ACTO III

Sobre os líquidos desconhecidos, apurou-se que o aquoso era cozimento de couve roxa e o viscoso um produto chamado Sucol B. Nos copos sujos levados pela Polícia, havia apenas restos de sumo e a anáise dos vestígios de saliva e impressões digitais neles deixados confirmou o seu uso por Ema, Ada, Oto e Zoé. As análises da urina e do soro do cadáver revelaram apenas uma quantidade insignificante de etanol. As vias respiratórias tinham vestígios do conteúdo estomacal e do seu efeito abrasante, concluindo os investigadores que a morte de Bia fora provocada pela ingestão de uma substâcia que não houve meio de detectar nas análises e terá ocorrido no período entre hora e meia a uma hora antes e o momento em que foi descoberto o corpo.

No cinto e nos sapatos havia impressões digitais sem sinais de cotinina - umas da própria Bia, outras apenas parecidas com as de Ivo. Contudo, havia marcas dos seus pés descalços no chão do quarto de Bia e os vestígios de sémen recolhidos da roupa da cama da vítima mostraram um padrão genético compatíel com o dele. Interrogado pela Polícia, Zoé afirmou ter saído da discoteca com Ivo e Bia, mas seguiu em sentido oposto para comprar tabaco e fumar um cigarro. Vagueou um pouco e voltou à discoteca, ficando surpreendido quando Ema e Ada lhe disseram que Ivo e Bia ainda nã:o tinham regressado. Oto titubeou que, como todos sabiam, esteve sempre rodeado de outras pessoas até o corpo ser descoberto.

Leo disse ter-se deitado nesse dia antes da uma da noite, porque se levantou muito cedo e estava muito cansado do trabalho no supermercado e das aulas nocturnas na Universidade, onde esteve até fechar, mas apercebeu-se da entrada do irmão já perto das duas horas.

Ivo afirmou estar ainda muito confuso com o que se teria passado nesse dia. Na realidade, só se lembrava de ter acordado no Hospital, entubado e ligado a aparelhos, e mostrou o autocolante da triagem, por se sentir incapaz de explicar como e porquê tinha ido lá parar. Por vezes, parecia ver-se nesse dia a jantar com o irmão, mas a recordação era tão difusa e nebulosa que não podia garantir que tal tivesse ocorrido. Apenas tinha a certeza de que fora para casa depois de receber alta do médico e lembrava-se de ter ido logo direito ao quarto deitar-se, por estar muito cansado e sonolento. Viu que faltavam cinco para as duas, mas se o irmão estava em casa não sabia.

Só eu sei que, certo dia, um deles ia apoderar-se de um pequeno frasco com um composto de ruténio, quando a minha entrada repentina no laboratório de Química Orgânica o evitou.

caras dos personagens